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15 de OUTUBRO 2010 - ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE ÁLVARO DE CAMPOS EM TAVIRA(1890)

por Casa Álvaro de Campos, em 14.10.10

 

Álvaro de Campos | Aniversário

 

 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses!  Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 

15 - 10 - 1929



In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002

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publicado às 23:34

ENCONTRO INTERNACIONAL ÁLVARO DE CAMPOS - Tavira

por Casa Álvaro de Campos, em 08.10.10

É bom ver que a  imprensa regional está atenta e sensível este fenómeno cultural !

 

 

postal do algarve/ cultural sul - http://issuu.com/postaldoalgarve/docs/cultura.sul26

jornal do algarve  - http://www.jornaldoalgarve.pt/2010/09/tavira-acolhe-encontro-internacional-alvaro-de-campos/

 

o algarve - http://www.oalgarve.com/tavira-recebe-o-i-encontro-internacional-alvaro-de-campos/

 

região sul - http://www.regiao-sul.pt/noticia.php?refnoticia=109307

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publicado às 11:10


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